Ia a pé para o serviço, para economizar o VT. Com isso me sobravam R$ 4,40 reais por dia mais R$ 7 reais por dia do almoço, pois comia a FABULOSA invenção do século: miojo. Minha dieta não é tão boa assim. Além, claro, de club-social nas horas de pausa. Simmmmmmm, eu tinha pausas durante o serviço: uma de 20 minutos e duas de 10 minutos. Já tive emprego que era uma pausa de 20 minutos e "lambam os beiço".
Estava começando a me acostumar com o horário, caminhada, supervisor(chato pra caralho), colegas de trabalho(chatos também). Estava fazendo tudo direitinho. Cumpria a meta de acionamentos em cadastros de clientes-devedores, fazia meu horário corretamente, sem atrasos - o que pra mim já é uma vitória - porém num dado dia eis que alguém cai na minha lista de devedores para acionar e cobrar. Olhei o cadastro inteiro e não acreditava no que via. Eram tantos números que conhecia que fiquei zonzo. Haviam nomes conhecidos também. E um filme passou pela cabeça:
- Pois é, tem um curso que eu quero fazer que é bem barato. É de alemão, só que não terei o dinheiro pra pagar a inscrição a tempo, porque tenho que ficar numa fila gigante, por ser barato e oferecido pela UFPR, num dia que eles estipulam e não terei o dinheiro a tempo .Você não tem como me ajudar?
- Olha, filho, as coisas estão apertadas por aqui. Tem o tratamento da pequena, praticamente uma academia para hipertensos, onde tem psicólogo, fisioterapeuta, cardiologista, todos sempre dispostos a fazer com que ela tenha uma vida saudável. Tem o aluguel, as contas que são pagas sempre com o máximo que podemos atrasar. E ainda tem as gatas: gasto cem reais só com a ração delas. - pensei nos momentos em que a via fumando cigarros initerruptamente e agora faz academia de hipertensos para poder sobreviver.
- Mas você pode me ajudar com cem reais por mês, pelo menos?
- Vamos ver, mas acho que sim. - naquele momento me imaginei pior do que gatas viralatas que só sabem lamber-se, pedir comida e dormir. Isso eu também sei fazer.
Depois desse dia, um lanche foi o mais caro que tive como pagamento de alguma coisa. E era o nome dele na tela do meu computador: débito de empréstimo pessoal. Acho normal, pra alguém que se dizia sem grana, emprestar do banco e ainda ficar devendo. Só que o problema não foi esse. Ao que iria registrar como "desempregado" e saltar para outro devedor, meu supervisor estava atrás de mim vendo tudo o que eu fazia e questionou-me:
- Já ligou pra esse cliente?
- É... já sim.
- Sério? Não ouvi você dizer uma palavra depois que entrou nesse cadastro. Posso ver quem é?
- É... - não deu tempo de falar nada, o otário já veio pra frente do meu monitor.
- Hum... tem o mesmo sobrenome que você, seu parente?
- Sim, meu pai.
- E por isso você não ligou?
- Sim, sei que ele não tem dinheiro. E seria estranho eu ligar pra cobrar meu pai, né, hehehe - tentei brincar.
- Não seria, afinal ele deve para o seu patrão e nada mais justo do que você fazer o seu trabalho direito, que é ligar pra cobrar. E nada de informar que está ocupado ou desligado ou telefone não existe, porque eu duvido que você não tenha o número do seu pai aí no seu celular.
- É... mas é necessário mesmo?
- Sim, claro. Tô esperando.
E então continuou o martírio. Disquei para todos os números que estavam na lista, pois sabia que não eram do meu pai. Todos desligados, não existe ou não completavam a chamada. Ao ver isso, e a informação que coloquei no cadastro, ele me fudeu mais uma vez:
- Anda, não me venha com essa de não atende/não existe. Claro que existe e acredito que você tenha aí no seu celular. Anda, tô esperando.
E eu fiz. Nem precisava do celular. Sabia decór. Engolia a saliva com força pra passar pela garganta. Pela primeira vez tive vontade de chorar naquele lugar. Não acreditava naquela situação, muitas coisas passavam pela minha cabeça. Não sabia o que dizer, ele reconheceria minha voz. Então ele atende: Alô?
Segui o atendimento padrão, perguntando quem fala e se a pessoa do cadastro está. Era o próprio. Me apresentei, informei a empresa que representava e o banco o qual solicitou-nos a cobrança. Informei a dívida e ele respondeu que não poderia nesse mês devido a problemas de saúde com sua mulher: gastos com remédios, clínicas, e com isso não teria como liquidar a dívida. Perguntou se poderiamos parcelar, falei que não. Nem argumentei. Passei o número pra contato com a empresa, caso houvesse a possibilidade de conseguir o dinheiro todo para pagar a dívida. Dois mil e quinhentos reais. Finalizei com "Muito obrigado e tenha uma ótima tarde", com nó na garganta.
Após finalizado, não conseguia pensar em nada. Tudo ficou nublado, como se o céu viesse parar dentro do Call Center. Eram nuvens e mais nuvens e eu os raios. Eu relampejava, de ódio. Terminei de escrever no cadastro, cliquei na opção "SAIR DO SISTEMA", fechei todas as janelas no micro, desliguei-o, peguei minhas coisas e ouvi alguém dizendo:
- Aonde você pensa que vai,mocinho?
Ao olhar para a cara do infeliz, notei seu sorriso de sarcasmo. Não falei nada, só virei-me em direção à porta e fui. Não me lembro do caminho percorrido nem das pessoas ao redor. Meus olhos continuavam como se estivesse andando nas nuvens cinzentas do céu de Curitiba. Só voltei à normalidade ao chegar na calçada. No dia seguinte me apresentei no RH que me contratou como terceirizado, pedi a conta e nunca mais dei as caras na empresa. Tentaram me ligar, mas não atendi. Me senti um bichinho indefeso numa floresta cheia de predadores. Sim, um dia você vira presa.
quinta-feira, 14 de maio de 2009
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