quinta-feira, 14 de maio de 2009

Dia do caçador.

Ia a pé para o serviço, para economizar o VT. Com isso me sobravam R$ 4,40 reais por dia mais R$ 7 reais por dia do almoço, pois comia a FABULOSA invenção do século: miojo. Minha dieta não é tão boa assim. Além, claro, de club-social nas horas de pausa. Simmmmmmm, eu tinha pausas durante o serviço: uma de 20 minutos e duas de 10 minutos. Já tive emprego que era uma pausa de 20 minutos e "lambam os beiço".
Estava começando a me acostumar com o horário, caminhada, supervisor(chato pra caralho), colegas de trabalho(chatos também). Estava fazendo tudo direitinho. Cumpria a meta de acionamentos em cadastros de clientes-devedores, fazia meu horário corretamente, sem atrasos - o que pra mim já é uma vitória - porém num dado dia eis que alguém cai na minha lista de devedores para acionar e cobrar. Olhei o cadastro inteiro e não acreditava no que via. Eram tantos números que conhecia que fiquei zonzo. Haviam nomes conhecidos também. E um filme passou pela cabeça:

- Pois é, tem um curso que eu quero fazer que é bem barato. É de alemão, só que não terei o dinheiro pra pagar a inscrição a tempo, porque tenho que ficar numa fila gigante, por ser barato e oferecido pela UFPR, num dia que eles estipulam e não terei o dinheiro a tempo .Você não tem como me ajudar?

- Olha, filho, as coisas estão apertadas por aqui. Tem o tratamento da pequena, praticamente uma academia para hipertensos, onde tem psicólogo, fisioterapeuta, cardiologista, todos sempre dispostos a fazer com que ela tenha uma vida saudável. Tem o aluguel, as contas que são pagas sempre com o máximo que podemos atrasar. E ainda tem as gatas: gasto cem reais só com a ração delas. - pensei nos momentos em que a via fumando cigarros initerruptamente e agora faz academia de hipertensos para poder sobreviver.

- Mas você pode me ajudar com cem reais por mês, pelo menos?

- Vamos ver, mas acho que sim. - naquele momento me imaginei pior do que gatas viralatas que só sabem lamber-se, pedir comida e dormir. Isso eu também sei fazer.

Depois desse dia, um lanche foi o mais caro que tive como pagamento de alguma coisa. E era o nome dele na tela do meu computador: débito de empréstimo pessoal. Acho normal, pra alguém que se dizia sem grana, emprestar do banco e ainda ficar devendo. Só que o problema não foi esse. Ao que iria registrar como "desempregado" e saltar para outro devedor, meu supervisor estava atrás de mim vendo tudo o que eu fazia e questionou-me:

- Já ligou pra esse cliente?

- É... já sim.

- Sério? Não ouvi você dizer uma palavra depois que entrou nesse cadastro. Posso ver quem é?

- É... - não deu tempo de falar nada, o otário já veio pra frente do meu monitor.

- Hum... tem o mesmo sobrenome que você, seu parente?

- Sim, meu pai.

- E por isso você não ligou?

- Sim, sei que ele não tem dinheiro. E seria estranho eu ligar pra cobrar meu pai, né, hehehe - tentei brincar.

- Não seria, afinal ele deve para o seu patrão e nada mais justo do que você fazer o seu trabalho direito, que é ligar pra cobrar. E nada de informar que está ocupado ou desligado ou telefone não existe, porque eu duvido que você não tenha o número do seu pai aí no seu celular.

- É... mas é necessário mesmo?

- Sim, claro. Tô esperando.

E então continuou o martírio. Disquei para todos os números que estavam na lista, pois sabia que não eram do meu pai. Todos desligados, não existe ou não completavam a chamada. Ao ver isso, e a informação que coloquei no cadastro, ele me fudeu mais uma vez:

- Anda, não me venha com essa de não atende/não existe. Claro que existe e acredito que você tenha aí no seu celular. Anda, tô esperando.

E eu fiz. Nem precisava do celular. Sabia decór. Engolia a saliva com força pra passar pela garganta. Pela primeira vez tive vontade de chorar naquele lugar. Não acreditava naquela situação, muitas coisas passavam pela minha cabeça. Não sabia o que dizer, ele reconheceria minha voz. Então ele atende: Alô?

Segui o atendimento padrão, perguntando quem fala e se a pessoa do cadastro está. Era o próprio. Me apresentei, informei a empresa que representava e o banco o qual solicitou-nos a cobrança. Informei a dívida e ele respondeu que não poderia nesse mês devido a problemas de saúde com sua mulher: gastos com remédios, clínicas, e com isso não teria como liquidar a dívida. Perguntou se poderiamos parcelar, falei que não. Nem argumentei. Passei o número pra contato com a empresa, caso houvesse a possibilidade de conseguir o dinheiro todo para pagar a dívida. Dois mil e quinhentos reais. Finalizei com "Muito obrigado e tenha uma ótima tarde", com nó na garganta.

Após finalizado, não conseguia pensar em nada. Tudo ficou nublado, como se o céu viesse parar dentro do Call Center. Eram nuvens e mais nuvens e eu os raios. Eu relampejava, de ódio. Terminei de escrever no cadastro, cliquei na opção "SAIR DO SISTEMA", fechei todas as janelas no micro, desliguei-o, peguei minhas coisas e ouvi alguém dizendo:

- Aonde você pensa que vai,mocinho?

Ao olhar para a cara do infeliz, notei seu sorriso de sarcasmo. Não falei nada, só virei-me em direção à porta e fui. Não me lembro do caminho percorrido nem das pessoas ao redor. Meus olhos continuavam como se estivesse andando nas nuvens cinzentas do céu de Curitiba. Só voltei à normalidade ao chegar na calçada. No dia seguinte me apresentei no RH que me contratou como terceirizado, pedi a conta e nunca mais dei as caras na empresa. Tentaram me ligar, mas não atendi. Me senti um bichinho indefeso numa floresta cheia de predadores. Sim, um dia você vira presa.

Um comentário:

  1. Eu despedi o meu patrão, desde o meu primeiro emprego, trabalho eu não quero não, eu pago pelo meu sossego.

    Eu despedi o meu patrão, Zeca Baleiro

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