Meu trabalho é uma merda. Todos odeiam trabalhar ou interagir conosco, pois somos a pior raça que existe na face da Terra: atendentes de telemarketing.
Sim, eu ligo para sua casa no sábado de manhã para estar vendendo ou estar cobrando alguma coisa. Se bem que se eu ligar pra cobrar,bem feito, trampa-filho-da-puta. Na verdade nesse ano estou em cobrança. É ótimo ficar ligando e ligando e ligando mais ainda para números que não existem ou pessoas que atendem e não entendem o que você está falando, ou o que está querendo, ou com quem quer falar. Todos falam, ao notar ser de uma central de atendimento, "Não conheço, nunca ouvi falar na vida". Todos estão mentindo, assim como nós. Somos uma raça que perfilha mais que ratos. Todos os dias quando alguém está procurando emprego,um emprego decente, digno, que pague bem, e não acham nada, não tem outra escolha: viram tudo atendente de telemarketing. E quando você quer sair dessa vida, qual a vaga que ligam oferecendo? "Oi, aqui é da MERDA RH e temos uma vaga de ATENDENTE das 14 às 20e30, quatrocentos e vinte reais fixos mais VT mais VR com comissões que vão até mil reais". Mil reais? Se fosse verdade não ligariam para minha casa para me oferecer essa vaga. Teriam arranjado alguém rapidinho, isso sim. Não obrigado, é minha resposta pronta. Mas a vaga de cobrança eu aceitei. Não tinha nada em mente e meu seguro desespero tava no fim. Melhor segurar quinhentos e trinta reais mais VT mais VR. E são só seis horas. Tenho a manhã e a noite livres. Mas isso não me anima nenhum pouco, não sei o porquê.
Somos treinados para alucinar todos com nossas incessantes ligações por minuto. Preciso ter oitenta cadastros acessados de devedores. Só que cada cadastro possui de um a cinco ou seis telefones. Dentre esses, alguns não existem, noutros as pessoas não conhecem o cliente e ainda há aqueles que já sabem ser cobrança e se passam por amigos do cara, dizendo, "Pódechá, eu dô o recado sim!", e fogem como lebres. Mas somos predadores. Treinamos, durante um mês ou mais, técnicas para cobrar ou vender ou só ligar mesmo e falar, "Estamos ligando para o Senhor para estarmos cadastrando o seu nome numa lista de espera para que o senhor fique esperando o nosso contato". Odeio gerúndio. Tento falar a maior parte do tempo possível no infinitivo, para encurtar a conversa, pois odeio falar muito. E ainda mais para cobrar: Santo Deus, como isso irrita! As pessoas inventam cada uma pra fugir da dívida: é desemprego, filho doente, câncer na família. Olha, pode ser tudo verdade, algum dia, mas que a maioria mente na cara dura, isso não tem como negar. E tem aqueles que ainda falam, "Não, pode mandar o boleto lá pra casa que assim que chegar eu pago". Ingênuos. Acham que fugirão de nós assim tão fácil. Ficarão uns dois ou três dias sem receber ligações, mas assim que o boleto não for pago, coitado do cara. Tenho pena dele. Porque agora sim os atendentes ganharam a liberação, dele próprio, de serem mais ferozes em seus atendimentos, "Como assim, senhor, o senhor não pagou por quê?O senhor falou que tinha o dinheiro e que pagaria ontem,senhor. Agora o senhor não tem mais dinheiro? Por que o senhor não empresta, assim como fez conosco? Quem sabe o senhor tenha crédito limpo para emprestar em algum outro lugar, não é mesmo? Ah, esqueci, o seu nome continuará sujo enquanto dever para nós, não é mesmo, senhor?Por isso mesmo é melhor pagar!Senhor.". Odeio esse meu trabalho, mas é ele quem me dá grana pra pagar contas no final do mês.
E tem um grande problema: fico letárgico sem dormir. Dessa forma eu ligo tão automático para os clientes que falo como se fosse gravado tudo que sai da minha boca. Não processo mais nada, já foi tudo milimétricamente gravado. Chego a conversar com alguém que reclama que o filho, o devedor, está numa clínica de reabilitação - isso me lembra Rehab - e quem paga os quatrocentos e vinte reais - isso me lembra o salário de atendente da vaga que rejeitei - por mês é a suposta senhorinha que fala com uma voz tão chorosa - isso me lembra minha avó - comigo que chego a ter pena. Quase, na verdade. Não tenho pena, sou pago para não ter pena. Não sou santo nem faço caridade, esse é meu trabalho. Então pergunto, "Mas quem ficou responsável pelas finanças do seu filho?", e ela responde,"Ele não tem finanças. Imagina só: vinte e nove anos e só dá problema. Não tem juízo. Tão cedo se meteu com droga e deu nisso. Daqui dois meses ele sai, mas é a segunda recaída. Acho que sempre vai voltar e continuar a dar prejuízo pra nós", e eu pensando, "Será que lembrei de trazer lanche pra comer?", e respondo, "Sim senhora, compreendo, mas então não tem como a senhora pagar a dívida?". Às vezes eu sou um filho-da-puta, eu sei. Mas esse é meu trabalho. Sou um lobo na pele de carneiro. Minha voz é tão suave e precisa, que muitas vezes me orgulho das respostas que dou aos clientes(trampas) que me aparecem. Um dia ainda escrevo um livro sobre isso: mais de mil e uma desculpas para enganar atendentes de telemarleting. Será um Best-seller, certeza.
sexta-feira, 10 de abril de 2009
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