sexta-feira, 10 de abril de 2009

Estamos na selva.

Meu trabalho é uma merda. Todos odeiam trabalhar ou interagir conosco, pois somos a pior raça que existe na face da Terra: atendentes de telemarketing.
Sim, eu ligo para sua casa no sábado de manhã para estar vendendo ou estar cobrando alguma coisa. Se bem que se eu ligar pra cobrar,bem feito, trampa-filho-da-puta. Na verdade nesse ano estou em cobrança. É ótimo ficar ligando e ligando e ligando mais ainda para números que não existem ou pessoas que atendem e não entendem o que você está falando, ou o que está querendo, ou com quem quer falar. Todos falam, ao notar ser de uma central de atendimento, "Não conheço, nunca ouvi falar na vida". Todos estão mentindo, assim como nós. Somos uma raça que perfilha mais que ratos. Todos os dias quando alguém está procurando emprego,um emprego decente, digno, que pague bem, e não acham nada, não tem outra escolha: viram tudo atendente de telemarketing. E quando você quer sair dessa vida, qual a vaga que ligam oferecendo? "Oi, aqui é da MERDA RH e temos uma vaga de ATENDENTE das 14 às 20e30, quatrocentos e vinte reais fixos mais VT mais VR com comissões que vão até mil reais". Mil reais? Se fosse verdade não ligariam para minha casa para me oferecer essa vaga. Teriam arranjado alguém rapidinho, isso sim. Não obrigado, é minha resposta pronta. Mas a vaga de cobrança eu aceitei. Não tinha nada em mente e meu seguro desespero tava no fim. Melhor segurar quinhentos e trinta reais mais VT mais VR. E são só seis horas. Tenho a manhã e a noite livres. Mas isso não me anima nenhum pouco, não sei o porquê.

Somos treinados para alucinar todos com nossas incessantes ligações por minuto. Preciso ter oitenta cadastros acessados de devedores. Só que cada cadastro possui de um a cinco ou seis telefones. Dentre esses, alguns não existem, noutros as pessoas não conhecem o cliente e ainda há aqueles que já sabem ser cobrança e se passam por amigos do cara, dizendo, "Pódechá, eu dô o recado sim!", e fogem como lebres. Mas somos predadores. Treinamos, durante um mês ou mais, técnicas para cobrar ou vender ou só ligar mesmo e falar, "Estamos ligando para o Senhor para estarmos cadastrando o seu nome numa lista de espera para que o senhor fique esperando o nosso contato". Odeio gerúndio. Tento falar a maior parte do tempo possível no infinitivo, para encurtar a conversa, pois odeio falar muito. E ainda mais para cobrar: Santo Deus, como isso irrita! As pessoas inventam cada uma pra fugir da dívida: é desemprego, filho doente, câncer na família. Olha, pode ser tudo verdade, algum dia, mas que a maioria mente na cara dura, isso não tem como negar. E tem aqueles que ainda falam, "Não, pode mandar o boleto lá pra casa que assim que chegar eu pago". Ingênuos. Acham que fugirão de nós assim tão fácil. Ficarão uns dois ou três dias sem receber ligações, mas assim que o boleto não for pago, coitado do cara. Tenho pena dele. Porque agora sim os atendentes ganharam a liberação, dele próprio, de serem mais ferozes em seus atendimentos, "Como assim, senhor, o senhor não pagou por quê?O senhor falou que tinha o dinheiro e que pagaria ontem,senhor. Agora o senhor não tem mais dinheiro? Por que o senhor não empresta, assim como fez conosco? Quem sabe o senhor tenha crédito limpo para emprestar em algum outro lugar, não é mesmo? Ah, esqueci, o seu nome continuará sujo enquanto dever para nós, não é mesmo, senhor?Por isso mesmo é melhor pagar!Senhor.". Odeio esse meu trabalho, mas é ele quem me dá grana pra pagar contas no final do mês.

E tem um grande problema: fico letárgico sem dormir. Dessa forma eu ligo tão automático para os clientes que falo como se fosse gravado tudo que sai da minha boca. Não processo mais nada, já foi tudo milimétricamente gravado. Chego a conversar com alguém que reclama que o filho, o devedor, está numa clínica de reabilitação - isso me lembra Rehab - e quem paga os quatrocentos e vinte reais - isso me lembra o salário de atendente da vaga que rejeitei - por mês é a suposta senhorinha que fala com uma voz tão chorosa - isso me lembra minha avó - comigo que chego a ter pena. Quase, na verdade. Não tenho pena, sou pago para não ter pena. Não sou santo nem faço caridade, esse é meu trabalho. Então pergunto, "Mas quem ficou responsável pelas finanças do seu filho?", e ela responde,"Ele não tem finanças. Imagina só: vinte e nove anos e só dá problema. Não tem juízo. Tão cedo se meteu com droga e deu nisso. Daqui dois meses ele sai, mas é a segunda recaída. Acho que sempre vai voltar e continuar a dar prejuízo pra nós", e eu pensando, "Será que lembrei de trazer lanche pra comer?", e respondo, "Sim senhora, compreendo, mas então não tem como a senhora pagar a dívida?". Às vezes eu sou um filho-da-puta, eu sei. Mas esse é meu trabalho. Sou um lobo na pele de carneiro. Minha voz é tão suave e precisa, que muitas vezes me orgulho das respostas que dou aos clientes(trampas) que me aparecem. Um dia ainda escrevo um livro sobre isso: mais de mil e uma desculpas para enganar atendentes de telemarleting. Será um Best-seller, certeza.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Lá fora, no mundo.

De banho tomado, o dia parece melhor. Parece. A vida fora de casa já é pior por si só, não seria a refrescância da água gelada no lombo que aliviaria esse peso, esse fardo. Sim, sinto-me uma empilhadeira carregando além do que pode ao me atirar nesse mar de gente. Quase um salto num lugar do mar aonde não dá pé. Alguém um dia disse que uma república ideal teria cerca de 2000 pessoas. Ou eu li num livro? Enfim... acho que pode ser verdade, posto que elas ficariam bem separadas e distribuídas pelo resto da cidade. O problema é se resolvessem fazer filhos como ratos. Aí já viu: voltaríamos pro esgoto novamente. E falando nisso, o cheiro dessa cidade não melhora de jeito nenhum. Sempre que passo pelo Largo da Ordem, falo alto, mesmo quando estou sozinho, que é para todos saberem: "Curitiba mija em você!". Se fosse só no Largo, não caberia essa frase à cidade. Porém com todas as outras possíveis ruas que passam bêbados e jovens, seria um ótimo slogan para as próximas eleições. Bêbados e jovens porque ambos não tem pudor algum em tirar o pau pra fora e mijar aonde estiver. Deixar seu rastro. Como cachorro encobrindo o cheiro do outro. Nesse caso, o cheiro de mijo de cerveja em cima do cheiro de mijo de pinga. Não que eu tenha o olfato tão aguçado a ponto de reconhecer ambos, mas que seria engraçada a cena, isso seria!

Sabe, acho que entendo um pouco meu mau humor. Deve ser por causa do sono. Na verdade é pela falta dele. Mas se eu conseguisse pregar o olho, nem para o trabalho iria. Só que vendo por outro ângulo, o tempo aqui não favorece muito ao bom humor. Você tem que ser otimista ao extremo para se safar desse bloqueio ao humor criado pelos céus de Curitiba. Sempre achei que o nome dessa cidade deveria ser "Cinzonópolis". Seria muito mais convidativa. As pessoas fariam jus ao modo curitibano de ser: efusivo, divertido, alegre, de bem com a vida, boa praça, conversador. E só pra deixar claro, isso foi sarcasmo.

domingo, 5 de abril de 2009

A manhã chega

Eu gosto do sol, mas esse cinza no céu irrita a ponto de imaginar saindo das minhas mãos ventos fortíssimos dissipando todas e mostrando finalmente o azul do céu. Me sinto poético, às vezes.
Espero um pouco mais pra chegar às sete da matina pra então fazer café. Tenho tanta preguiça de fazê-lo,mas fica muito mais gostoso do que o solúvel.
Um dia lendo um livro do Caio F., notei uma frase muito minha cara: "Porque é assim que é. Naturalmente. As coisas sempre prestes a serem apanhadas. E você eternamente prestes a apanhá-las. Como uma sina. Sempre prestes."
E eu esperando o relógio do computador chegar nas sete horas pra poder ir até a cozinha. Seis e cinquenta e cinco; seis e cinquenta e seis; seis e cinquenta e sete.Saco! Vou fazer essa merda de café que isso irrita pra caralho. Devo levar três minutos até a cozinha. Pelo menos lavo a cara. Irrita tanto remela grudada nos olhos. E a água da pía da cozinha é tão gostosa pela manhã, hummmmm. Lavo a cara ali mesmo. O cheiro do café embriaga. Fato. Isso deve ser droga, certeza. Nunca li nada a respeito, só a galera bebendo litros por dia. E não lembram de tomar meio copo d´água pra hidratar o corpo."Mas café tem água",dizem. Mas não é a mesma coisa, acho eu.

A madrugada se vai

E eu aqui, olhando pela janela a cidade dormir. Parada como um defunto ou às vezes elétrico como um ser hiperativo. Mas gosto mesmo assim. As horas passam, o vento vem e vai. Olho para baixo e tenho náuseas, às vezes. De cima do prédio é bom, pois sinto um momentâneo distanciamento do mundo, das pessoas, da vida mesmo. Queria poder sair por aí sem ter que conviver com elas. Mas, claro, às vezes.
Enquanto isso fico aqui no meu quarto, xicará de café com leite e bolo de chocolate. Pareço até uma mulher querendo saciar a falta de sexo. Isso eu sacio sozinho, com a mão mesmo. Pra homem é tão fácil, né!
Mas o café esfria, e sou a única pessoa no mundo, acho, que adora café com leite frio. Uma delícia quando percebo café de ontem na garrafa, mesmo que pouco. Com o leite, dá pruma caneca cheia. Tenho receio quando penso que ao acabar o café com leite há um morro de açúcar no fundo. Talvez porque isso possa trazer para mim num futuro não muito distante uma bela duma diabetes. Quem se importa? Eu não. Adoro açúcar mesmo.
Só que tem dias que nem isso nem aquilo me distrai. Quer dizer, algo que fico matutando na cabeça é que me distrai de todas as outras coisas, seja no trabalho, em casa ou na diversão. Como se alguma coisa faltasse. Algum dia aprendo como parar de me dispersar por aí. Parece que viajo, sabe, e como uma folha fico plainando pelo mundo o qual nem mesmo conheço. Um mundo que nem sei se está nesse mundo onde vivemos. Talvez por isso prefira a madrugada. Tão singular, sem aquelas luzes do dia e aquelas pessoas que teimam em seguir por aí, importunando meus olhos. Penso num mundo melhor com menos pessoas, mas não sei se isso é egoísmo ou irritabilidade demais da minha parte, pois já vai fazer vinte e quatro horas que estou sem dormir.